Tem um momento no vídeo de “Door” em que Caroline Polachek olha direto para camera enquanto a música para e sobra apenas ela e o refrão. O clipe não é exatamente ficção, mas funciona como se ela estivesse quebrando a quarta barreira, piscando para o público depois de tanta coisa que acontece no vídeo. Algo como “Vocês ainda estão aqui? Que bom.” Ou melhor, “Lembram de mim, eu cantava naquela banda do comercial do iPod. Isso claramente não é um comercial de iPod kkk.”

Dali, o clipe pisa no acelerador direto para algum vídeo que a Kate Bush nunca lançou. É estranho. É incrível. E é fácil ficar obcecado.

De certa forma, “Door” é a clímax de batalha de auto-afirmação que Polachek vem travando nos últimos 10 anos. Quando o Charlift apareceu com “Bruises” há mais de uma década, foi fácil etiquetar como “puro hype” (quem nunca?), “comercial” (o tal anúncio da Apple não ajudou), “pop demais” (que tempos eram aqueles?). O que veio depois (“Something” de 2012 e “Moth” de 2015, ótimos) foi uma jornada buscando desconstruir a imagem que a máquina havia feito de si, encontrando pelo caminho o meio termo entre a estranheza e o instinto pop evidente nas suas composições. “Took ten laps ‘round the planet / To prove what I wasn’t”, ela canta já na primeira estrofe de “Door”, deixando claro o subtexto.

Assim, ainda que “Door” não seja seu primeiro registro solo, o single funciona como uma re-introdução 3 anos após o fim do Chairlift. Passados o synth-pop pastoral do Ramona Lisa, o ambient utilitário do CEP, e participações aqui e ali (a com a Charli XCX é imperdível), Caroline finalmente tascou o próprio nome no título. E, mais do isso, a primeira oferta dessa nova fase é também a realização da visão artística prometida nas entrelinhas dos últimos dois discos do Charlift, mas só cumprida agora.

Ainda que ela seja plenamente capaz de seguir uma estrutura pop padrão (ela é Beyoncé certified™, oras), Polachek é melhor quando pisa fora da linha. “Door” talvez seja o melhor exemplo do tipo de canção pop que sai dessa dualidade: começa pela ponte, entorta tudo na estrofe (a marca do Danny L Harle do PC Music na co-produção aparece forte já de cara), volta à ponte, e então, desagua no refrão.

Por um momento, não há libertação: você está preso com ela no do outro lado da porta, e de uma outra porta, e de uma outra porta… Um vórtex que te mantém suspenso até o falseto inconfundível dissolve a tensão.

Num ano tão louco como esse, ouvir alguém realizar sua arte no nível de maestria que Caroline Polachek mostra aqui dá até uma esperança pro futuro.


“Door” faz parte de “Pang”, disco que ela lança até o fim do ano e que também inclui “Ocean Of Tears” (outro clipe com altas vibes katebushicas) e “Parachute”.

Publicado por Livio Vilela

Happiness Engineer at Automattic

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